Canastra, reconstrução e retorno: a Ultra Brou 2026 como o lugar da minha volta
Por Felipe Miranda Pais
Treinador de Endurance • Fundador da Vélotime Training®
A Ultra Brou Canastra 2026 marcou minha primeira competição depois de um longo processo de recuperação, e por isso carregou um significado muito maior do que qualquer resultado.
1. Introdução: esse pódio não foi sobre colocação
A Ultra Brou Canastra 2026 marcou minha primeira competição depois de um longo processo de recuperação. Não foi apenas uma prova, não foi apenas um resultado e, principalmente, não foi apenas um pódio. Foi a confirmação de que eu estava de volta.
Depois de uma oclusão da artéria ilíaca externa, diagnóstico tardio, 17 consultas médicas, muitos meses de incerteza e uma cirurgia com o Dr. Daniel Mendes, voltar para a Serra da Canastra recuperado, pedalando forte e competindo novamente teve um significado difícil de resumir.
Terminei em 3º lugar na Solo Master 40+ e 5º geral. O resultado foi importante, claro. Mas, para mim, a vitória real foi estar ali, com saúde, em uma prova que atravessa profundamente a minha história como atleta, treinador e fundador da Vélotime Training®.
2. A Canastra antes da Ultra Brou
A Serra da Canastra faz parte da minha história no mountain bike desde 2008. Naquele ano, fui para a região fazer um período de treinamento com foco na Cape Epic. Foram duas semanas explorando estradas, trilhas, subidas longas, descidas técnicas e caminhos que, com o tempo, passaram a fazer parte da minha formação como atleta de endurance.
Depois vieram três Cape Epic: 2009, 2010 e 2013. Mesmo com provas internacionais no calendário, a Canastra nunca deixou de fazer parte da minha rotina. Continuei voltando em todas as temporadas, pelo menos uma vez ao ano — e, em muitos anos, duas vezes. A região se tornou mais do que um local de treino. Virou base, referência, escola e ponto de encontro.
Com amigos e atletas, chegamos a nomear esses períodos de preparação como Canastra Epic. Era uma forma de usar a dureza, a beleza e a variedade do terreno da Canastra como preparação para grandes desafios, mas também como base para toda a temporada. Antes mesmo da Ultra Brou existir, a Canastra já era território de treino, amizade, exploração e construção.
3. O nascimento da Ultra Brou na minha trajetória
Em 2017, Brou e Juninho, hoje da Global Bicicletas, me convidaram para conhecer percursos que dariam origem à primeira Ultra Brou Canastra. Esse convite fazia sentido porque minha relação com a região já era antiga. Eu vinha do XCO, tinha experiência em provas de ultra maratona e carregava uma ligação muito forte com a Canastra, com o mountain bike e com as provas de longa distância.
Em 2018, na primeira edição da Ultra Brou Canastra, competi na Solo Open, fui campeão e venci a etapa rainha na geral. A prova nasceu em um momento importante da minha vida. Eu estava em uma fase de transição profissional, construindo a Vélotime Training®, treinando um pouco menos do que em outros períodos e com menos possibilidade de competir provas longas fora de casa ou fora do país.
A Ultra Brou apareceu como uma injeção de ânimo. Era uma grande prova, em um território que eu conhecia, respeitava e amava. Uma prova dura, verdadeira e com a identidade do mountain bike de longa distância. Desde o início, ela teve para mim um significado que ia além do calendário competitivo.
4. Quando a perna desligou
Em outubro de 2024, minha artéria ilíaca externa ocluiu. Na prática, eu sentia algo que não fazia sentido para o atleta e treinador que eu era. A perna simplesmente não respondia como deveria. Não era uma queda normal de forma, não era falta de treino e não era apenas fadiga acumulada. Havia algo mais profundo acontecendo.
O diagnóstico correto veio apenas em julho de 2025: endofibrose da artéria ilíaca externa. Até chegar ali, foram meses de incerteza, dúvidas, perda de desempenho e uma busca difícil por respostas. Passei por 17 consultas médicas até encontrar um caminho concreto.
Durante muito tempo, a lesão parecia algo sem volta. Muitas opiniões apontavam para um cenário limitado, com alternativas que não me davam segurança para retornar ao esporte da forma como eu desejava. Foi preciso estudar, insistir, perguntar, cruzar informações e procurar profissionais que entendessem o problema com a profundidade necessária.
5. A possibilidade de reconstrução
Em outubro de 2025, depois de muito estudo e de muitas consultas, encontrei uma possibilidade real de reconstrução da artéria. Esse momento foi decisivo. Não era uma decisão simples, porque envolvia cirurgia, incertezas e um processo de recuperação que ainda precisaria ser respeitado. Mas, pela primeira vez depois de muito tempo, existia um caminho.
No dia 13 de novembro de 2025, fiz a cirurgia com o Dr. Daniel Mendes, profissional que teve papel fundamental nessa jornada. O processo não foi apenas físico. Foi mental, emocional e também profissional. Como treinador, eu entendia métricas, fisiologia, carga, potência e adaptação. Mas viver isso no próprio corpo, com o futuro competitivo incerto, foi outra dimensão de aprendizado.
Voltar a pedalar não era apenas voltar ao treino. Era reconstruir confiança. Era reaprender a perceber o corpo sem medo, respeitar o processo e entender que a performance, quando a saúde está em jogo, passa a ter outro significado.
6. A volta para a Canastra
Por isso, voltar para a Ultra Brou Canastra em 2026 teve outro peso. Eu não estava apenas retornando a uma prova. Eu estava voltando a um lugar que já fazia parte da minha história antes mesmo da Ultra Brou existir.
A Canastra tinha sido base para a Cape Epic. Tinha sido território de treino, amizade e preparação. Tinha sido palco da primeira Ultra Brou, em 2018, quando fui campeão. E agora se tornava o lugar da minha volta depois da lesão.
Cada trecho carregava mais do que esforço físico. As subidas, a poeira, os estradões, os trechos técnicos e a dureza da prova tinham outro significado. Eu não estava ali para provar que era o mesmo atleta de antes. Eu estava ali para confirmar que ainda existia um caminho possível.
E existia.
7. O resultado: importante, mas não o centro
Na Ultra Brou Canastra 2026, terminei em 3º lugar na Solo Master 40+ e 5º geral. É um resultado importante, principalmente considerando o processo que vivi. Mas ele não é o centro da história.
O centro é ter voltado a competir, voltar a sentir a bike respondendo, voltar a estar dentro de uma prova dura, de vários dias, em um terreno que exige corpo, cabeça e experiência. O pódio foi consequência. A vitória real foi estar ali.
Esse retorno também me lembrou algo que, como treinador, eu sempre defendo: performance não pode ser separada de saúde. Quando o corpo dá sinais fora do padrão, é preciso investigar. Nem tudo é falta de treino, falta de força mental ou queda de condicionamento. Às vezes, existe algo maior por trás.
8. Giuliano Mendes: quase 20 anos de relação treinador-atleta
Um dos momentos mais especiais foi dividir os quatro dias de pódio com o Giuliano Mendes. O Giuliano é um dos atletas que acompanho há mais tempo — praticamente duas décadas de relação treinador-atleta. São muitos anos de treinos, provas, ajustes, conversas, evolução e continuidade.
Na Ultra Brou Canastra 2026, ele terminou em 4º lugar na categoria, logo atrás de mim, e dividiu comigo os quatro dias de pódio. Isso tem um peso enorme, porque não fala apenas de resultado. Fala de vínculo, método, confiança e história construída ao longo de muitos anos.
Poucas coisas representam tão bem o que acredito no treinamento quanto ver um atleta antigo, ainda competitivo, ainda presente, ainda evoluindo e dividindo uma experiência como essa.
9. Loló Ranchel: treinadora da Vélotime e campeã geral feminina
A edição também teve um significado especial para a Vélotime Training® pela vitória da Loló Ranchel. A Loló, que hoje trabalha comigo como treinadora na Vélotime, venceu a geral feminina da Ultra Brou Canastra 2026.
Esse resultado reforça algo importante: a Vélotime não estava presente na prova apenas pela minha história individual. Estávamos ali também como equipe, como método e como representação de um trabalho que une treinamento, vivência prática e cultura real do ciclismo.
Ver a Loló vencendo a geral feminina foi uma alegria enorme. Ela representa uma nova fase da Vélotime: mais gente boa envolvida, mais troca, mais presença e mais capacidade de multiplicar conhecimento com responsabilidade.
10. Brou, Juninho e a continuidade dessa história
Outro ponto simbólico foi dividir trechos da prova com o próprio Brou. O Brou, idealizador da Ultra Brou, também vive um processo de recuperação depois de lesões e fraturas importantes nos últimos anos. Em 2026, ele pedalou forte, me conduziu em momentos duros da prova e ainda bateu um de seus recordes pessoais pós-lesão.
Foi especial por tudo o que essa prova representa. Em 2017, Brou e Juninho me convidaram para conhecer os percursos que dariam origem à primeira Ultra Brou. Naquela época, os dois já faziam parte dessa história. Anos depois, essa relação ganhou um novo capítulo com a parceria entre Global Bicicletas e Vélotime Training®.
Essa conexão não nasce do acaso. Ela vem da convivência no esporte, da confiança construída ao longo dos anos e de uma visão parecida sobre o ciclismo: não apenas como produto, mas como experiência, método, cultura e transformação.
11. Global Bicicletas e uma nova fase da Vélotime
A parceria com a Global Bicicletas aconteceu em um momento muito especial. Eles passaram a fazer parte de uma nova fase da Vélotime em um período em que minha performance pessoal ainda era uma incerteza. O apoio não veio depois de um resultado pronto. Veio durante um processo de reconstrução.
Isso tem muito valor.
Com essa parceria, a Vélotime passou a contar com bikes Specialized nos treinos indoor, além da minha Tarmac SL8 nos treinos de estrada e da Epic 8 Pro no mountain bike — bike com a qual competi a Ultra Brou Canastra 2026.
Mas mais importante do que o equipamento é o que ele representa. Representa confiança, estrutura, visão conjunta e o desejo de fortalecer o ciclismo com método, experiência e presença real no esporte.
A Epic 8 Pro foi a bike da minha volta. Mas a parceria com a Global representa algo maior: uma nova etapa da Vélotime.
12. A Canastra como lugar de reconstrução
Alguns lugares têm peso próprio. A Canastra é um desses lugares para mim.
Ela foi base de preparação, território de camps, cenário de grandes treinos, ponto de encontro com amigos e atletas, origem de muitas histórias e parte importante da minha relação com as ultra maratonas. Foi onde conheci percursos que ajudariam a formar a Ultra Brou. Foi onde venci a primeira edição da prova. E agora foi onde voltei a competir depois de uma lesão que, por meses, parecia não ter um caminho claro de retorno.
Por isso, a Ultra Brou Canastra 2026 não cabe apenas em uma classificação. Ela representa fechamento e recomeço ao mesmo tempo. Fechamento de um ciclo de medo, dúvida e incerteza. Recomeço de uma fase com mais saúde, maturidade e consciência.
13. O que fica dessa edição
O que fica dessa edição não é apenas o 3º lugar. Fica a lembrança de voltar a pedalar forte, o reencontro com a Canastra, a presença de atletas e amigos, o pódio dividido com o Giuliano, a vitória da Loló, o Brou pedalando forte novamente, a parceria com a Global Bicicletas e a Epic 8 Pro coberta pela poeira da Canastra.
Fica também a sensação de que o caminho difícil valeu a pena. Foram meses de incerteza, muitas conversas, muitas consultas, muito estudo e uma cirurgia que mudou o rumo da história. Voltar a competir nesse contexto foi mais do que uma meta esportiva. Foi um marco pessoal.
E fica uma convicção ainda maior sobre o que acredito como treinador: o corpo precisa ser escutado, os sinais precisam ser investigados, o treinamento precisa ter método e a performance nunca deve ser separada da saúde.
14. Fechamento: não foi sobre pódio
Esse pódio não foi sobre colocação. Foi sobre voltar.
Voltar à Canastra. Voltar a competir. Voltar a confiar no corpo. Voltar a viver uma prova dura com presença, entrega e significado.
A Serra da Canastra sempre foi mais do que cenário.
Em 2026, ela virou o lugar da minha volta.
Créditos e agradecimentos
À Global Bicicletas, por fazer parte dessa nova fase da Vélotime Training® e dessa história de reconstrução.
Ao Dr. Daniel Mendes, pelo papel decisivo no processo cirúrgico.
Ao Brou, pela prova, pela história e pelos momentos divididos dentro do percurso.
À Loló Ranchel, pela vitória na geral feminina e por representar tão bem essa nova fase da Vélotime.
Ao Giuliano Mendes, por quase 20 anos de relação treinador-atleta e por dividir comigo os quatro dias de pódio na Canastra.
E a todos que, de alguma forma, fizeram parte dessa caminhada.
Sobre Felipe Miranda
Felipe é fundador da Vélotime Training®, credenciado TrainingPeaks™, coach e bike fitter profissional desde 2005. É competidor há 25 anos, finisher 3 vezes da ABSA Cape Epic e 9 vezes da Brasil Ride Bahia.








